As barragens agrícolas existentes em herdades do Alentejo encheram com a chuva das últimas semanas e, no distrito de Évora, as autoridades estão a fazer um levantamento sobre a sua segurança para prevenir eventuais situações de risco. “A nossa maior preocupação é a segurança das barragens, fundamentalmente das agrícolas, que são de propriedade privada e não são monitorizadas”, disse a governadora Civil de Évora, Fernanda Ramos.
Como essas pequenas albufeiras das herdades são feitas de “terra compactada” e encontram-se cheias, explicou, torna-se importante acautelar que, no caso de eventualmente a água extravasar, não ponha em causa pessoas e bens. “Pode haver alguma ruptura e, eventualmente, cortes de estrada”, exemplificou, dando conta que, para prevenir situações de risco, a Comissão Distrital de Protecção Civil decidiu que deve ser feito o levantamento do número e estado das barragens agrícolas.
Esse trabalho está a ser efectuado pela Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Alentejo, em parceria com a Direcção Regional de Agricultura e Pescas (DRAPA) e os municípios e Comissões Municipais de Protecção Civil.
O objectivo, frisou Fernanda Ramos, é “tentar perceber onde é que existem as barragens, se estão inventariadas, se há conhecimento de situações anómalas e se estão em causa populações, para podermos garantir, em caso de emergência, a protecção das pessoas e dos seus bens”.
Segundo a governadora Civil de Évora, durante o período de chuva intensa verificado, desde o mês passado, no distrito, a Protecção Civil apenas foi chamada a intervir na Barragem do Barrocal, na herdade do mesmo nome, no concelho de Reguengos de Monsaraz.
Nesse caso, disse, “foi verificado que a barragem está com alguns problemas em termos estruturais”, porque “numa das partes” “já só existem cerca de 70 centímetros de terra”.
“A Protecção Civil vai comunicar ao proprietário que tem de fazer uma intervenção ao nível da estrutura, mas se, por acaso acontecesse um desastre, já se sabe que não haveria problema porque não há populações por perto e a zona circundante tem capacidade de absorção da água existente na barragem”, explicou.
A presidente da ARH do Alentejo, Paula Sarmento, realçou a importância de eventuais anomalias nas albufeiras serem detectadas “numa fase o mais preliminar possível”, considerando essencial “uma articulação muito grande com os municípios e a Protecção Civil”. “Para ser possível definir com a autoridade nacional da Água, o INAG, as medidas que são necessárias implementar para resolver a situação ou, numa situação de risco, promover o esvaziamento controlado da infra-estrutura para realizar obras de beneficiação”, explicou.
Entretanto, a Administração da Região Hidrográfica do Alentejo atribuiu a alteração da qualidade da água da albufeira do Monte Novo ao arrastamento, causado pelas enxurradas, de lamas com alumínio depositadas há anos nas imediações da estação de tratamento. “Antigamente, não só em Évora, mas no país, não havia práticas de gestão e as lamas provenientes do tratamento da água, em vez de serem mandadas para aterro, eram abandonadas nas imediações das albufeiras”, explicou a presidente da Administração da Região Hidrográfica (ARH), Paula Sarmento.
“Existem lamas muito próximas da Estação de Tratamento de Água (ETA)”, referiu, precisando que essa deposição aconteceu “no passado” e que agora “todo esse material”, incluindo o manganês existente de forma “natural” nos terrenos envolventes à barragem, “chegou ao mesmo tempo à albufeira”.
Além disso, “com o passar dos anos”, também “alguns” desses resíduos das antigas lamas já tinham sido levados para a massa de água bruta, acabando por sedimentar-se a jusante (depois) da ETA.
Com a chuva intensa e a turbulência da água da albufeira, explicou Paula Sarmento, várias partículas de resíduos entraram em suspensão, para as proximidades da captação da ETA. “São situações temporárias, porque essas partículas sedimentam outra vez a jusante da captação”, frisou.
No final de uma reunião da Comissão Distrital de Protecção Civil, Paula Sarmento tinha explicado aos jornalistas que, antes do excesso de alumínio detectado terça-feira na água do Monte Novo, que levou ao corte do abastecimento público de água em Évora, a ARH já tinha planeado uma intervenção de limpeza na albufeira.
“Já era intenção de todos nós promover a limpeza e algumas acções de promoção da qualidade da água do Monte Novo”, realçou, explicando que essa operação não vai avançar a curto prazo, porque a albufeira está cheia, mas acontecerá mais para o Verão.
“Num sítio com o clima que temos”, é preferível “que aproveitemos as horas de sol e de temperaturas mais elevadas para facilitar e tornar mais económico e célere” esse processo, disse.
A presidente da ARH admitiu que, para realizar a operação, poderá não ser necessário esvaziar a barragem, mas é “importante um abaixamento da cota”, ainda que tal não coloque em risco o fornecimento público aos concelhos servidos pela Águas do Centro Alentejo, uma vez que o Monte Novo já está ligado a Alqueva.