Chuva e lamas contaminadas na origem do alumínio em excesso. Administração da região hidrográfica promete limpar albufeira do Monte Novo no Verão, para evitar repetições.
Para prevenção de eventuais situações de extravaso de outras barragens, sobretudo agrícolas, a Administração da Região Hidrográfica do Alentejo, a Direcção Regional de Agricultura e as autarquias vão iniciar a sinalização deste tipo de albufeiras. Isto porque estas são feitas fundamentalmente de terra compactada, muitas não estão licenciadas e localizam-se em propriedade privada.
A governadora civil de Évora, Fernanda Ramos, salientou que, até ao momento, foi solicitado o apoio da Protecção Civil na Barragem do Barrocal, no concelho de Reguengos de Monsaraz, por ter sido detectado que numa das partes só existe cerca de 70 cm de terra, o que significa que a acumulação de água pode provocar um rebentamento. Contudo, afiançou que esta já foi vistoriada e que, se houvesse um acidente, "não haveria problema porque a zona circundante tem capacidade de absorção da água, não se correndo os riscos de cortar a estrada e afectar populações".
A situação do abastecimento de água na cidade de Évora está, aos poucos, a voltar ao normal. Ontem de manhã, a maioria dos cerca de 50 mil habitantes já tinham água, embora alguns ainda com pouca pressão. Uma situação que, segundo o presidente da câmara municipal, José Ernesto d"Oliveira, seria ultrapassada brevemente. Outras zonas, sobretudo as do centro histórico, ainda continuavam com as torneiras secas ontem, à hora de fecho desta edição.
Um desses casos, na Praça do Giraldo, coração da cidade, era por cima do conhecido Café Arcada, onde os habitantes dos prédios rústicos continuaram a tratar da higiene da casa com a água da chuva e a usar água engarrafada para cozinhar.
A Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Alentejo avançou com duas razões para explicar a concentração de alumínio na água, que obrigou ao corte de anteontem no abastecimento. Por um lado, a chuva e, por outro, práticas ambientais erradas, mais concretamente a deposição de lamas contaminadas junto à estação de tratamento de águas.
ARH garante qualidade
"Temos assistido a uma intensa precipitação, o que se traduziu em escoamentos fortes para a Barragem do Monte Novo", sublinhou, ontem, a presidente da Administração da Região Hidrográfica do Alentejo, Paula Sarmento. As enxurradas arrastaram todo o tipo de partículas que se encontravam na envolvente da albufeira, incluindo lamas com alumínio, resultantes do processo de tratamento da água que é captada para o abastecimento. "Existem lamas muito próximas da estação de tratamento de água", disse Paula Sarmento, e "todo esse material", incluindo o manganês existente de forma "natural" nos terrenos envolventes à barragem, "chegou ao mesmo tempo à albufeira". Além disso, "com o passar dos anos", também alguns resíduos dessas antigas lamas já tinham sido levados, acabando por sedimentar-se. Com a chuva intensa e a turbulência da água da albufeira, numerosas partículas de resíduos entraram em suspensão, nas proximidades das zonas onde é captada a água para abastecimento.
"São situações temporárias, porque essas partículas sedimentam outra vez a jusante da captação", frisou.
No final de uma reunião da Comissão Distrital de Protecção Civil, a mesma responsável explicou que o serviço que dirige já tinha planeado uma limpeza na albufeira. "Já era intenção fazer a limpeza e algumas acções de promoção da qualidade da água do Monte Novo". Intenções que, pelo menos no que toca à limpeza, terão de esperar pelo próximo Verão, porque agora a albufeira está cheia.
Grande procura
Para o presidente da câmara, o problema ontem foi a corrida às torneiras que começou. "Estamos, neste momento, com um consumo de 800 metros cúbicos por hora, quando a nossa capacidade é de 600. Logo, estes picos estão a fazer baixar a pressão nas torneiras", lamentou José Ernesto d"Oliveira, criticando quem pôs a circular boatos.
A ânsia de abastecer as casas explicava-se com os receios de que iria haver cortes a partir das 0h00 desta sexta-feira, uma hipótese que o autarca refutou mas que teria levado à acumulação de água em todo o tipo de depósitos. "É lamentável que isto esteja a acontecer, até porque o que estamos a assistir é a uma política destrutiva. Pode ser que um dia tenhamos uma cultura urbana que perceba tudo o que tem vindo a acontecer", vincou.
Quanto à água que voltou à rede pública, a ARH garante a qualidade. No momento do corte, o alumínio atingiu 350 microgramas por litro na água bruta, isto é, na captação, quando o máximo é de 200. Ontem, segundo Paula Sarmento, os níveis estavam "muito abaixo do máximo".